Discussão (?!) sobre o primeiro postulado da relatividade restrita
Às vezes tenho a impressão de que os divulgadores de ciência tem perdido o fio da meada na divulgação científica. Ou melhor, que os maiores divulgadores de ciência na atualidade estão na realidade divulgando suas teorias (talvez para conseguir verbas para continuar suas pesquisas), mais do que propriamente fazer divulgação científica.

Por que cheguei a esta conclusão?
Porque todo mundo parece querer discutir a física recente (cosmologia, relatividade restrita e geral, mecânica quântica) sem ao menos saber sequer qualquer fundamento de física básica, nem mesmo do que é ciência.
E eis que neste contexto, surge alguém que sempre quer discutir sobre a dilatação temporal que ocorre na relatividade restrita, por exemplo, nos locais A e B.
Primeiramente temos que considerar que A e B devem ser referenciais inerciais. E aí já vejo uma cara de certo espanto e desconhecimento… O que é um referencial inercial? (Quem tiver curiosidade de saber é só clicar o link precedente…) E durante a explicação eu penso: “Como alguém que sequer saiba a física newtoniana queira discutir relatividade? Tem algo errado em algum lugar…”
E então, a dúvida maior surge: “Se estou no referencial A, se eu observar o relógio no referencial B, noto que o tempo em B corre mais lentamente que em A. Isto quer dizer que meu amigo que está no referencial B verá o meu relógio correr mais rapidamente que o dele. Certo?” – Esta lógica tem um certo sentido para quem não saiba relatividade e ainda considere que exista um tempo absoluto, mas está totalmente incorreta.
“Mas como errado?” – Bem, o primeiro postulado nos diz que a física em qualquer referencial inercial deve ser a mesma. Então pergunto: “Ora, se a física deve ser a mesma em qualquer referencial inercial, por que o seu amigo no referencial B deveria ver o seu relógio em A mais rápido?”… Não obtenho resposta alguma…
Talvez, o que falte aí seja entender o que este postulado significa, ou seja, o que quer dizer a afirmação de que a física deve ser a mesma nos referenciais inerciais?
Suponha que você faça um experimento X e obtenha o resultado Y estando no referencial A. O seu amigo no referencial B ao fazer o mesmo experimento X deve obter o mesmo resultado Y. Isto é válido para qualquer experimento X que você determinar, ou seja, as teorias e as leis, enfim, a física que é possível construir daí é a mesma. Este postulado, mesmo que não demonstrável, nos diz algo muito profundo: Se a física não fosse a mesma nos referenciais inerciais, qualquer resultado que você obtivesse no experimento X estando no referencial A, seria crível para o seu amigo no referencial B e vice-versa, significando que na realidade nós não teríamos física nenhuma, pois qualquer um poderia dizer o que quisesse sobre quaisquer resultados experimentais alegando estar em referenciais inerciais diferentes.
Assim, o experimento “medir o tempo em um outro referencial inercial” para os referenciais A e B deve apresentar o mesmo resultado independente de qual referencial se faça o experimento, ou seja, você e seu amigo devem obter o mesmo resultado.
E voltando ao assunto inicial, onde está o erro? Será que a divulgação científica não tem focado demais em física contemporânea? E a física básica? Não tem assuntos interessantes?













Grande artigo!
Também tinha notado essa estranha tendência nos meios de divulgação científica. Cheguei a indagar um amigo uma vez quando ele me pediu para escrever sobre relatividade ou quântica e eu perguntei: e por que não fazer sobre mecânica clássica?
Em comunidades do Orkut, geralmente, sempre aparece alguém perguntanto sobre viagens no tempo, relatividade e mecânica quântica. Ao responder percebe-se que ele sequer tem noções de física clássica. Concordo com você, onde estão as perguntas sobre física clássica? será mesmo que não há nada de interessante?
Gosto muito de Física Moderna, mas decidi começar pelo começo. No momento estou aprendendo algumas coisas sobre cálculo para iniciar na Mecânica de uma forma mais avanaçada, vai demorar, mas quando eu chegar lá terei uma boa base.
Fica a pergunta sem respota: estamos mesmo divulgando a ciência?
E parabéns pelo artigo, sua explicação sobre o postulado foi breve e objetiva. Já tinha visto algo semelhante sobre isso antes, no livro do Brian Greene. Até mais!
17 de dezembro de 2006 @ 20:53
Discussão interessante. Hoje em dia é comum ouvir em uma palestra da área de administração de empresas, medicina, jornalismo ou psicologia, um sujeito(a) fazer um parênteses na palestra pra falar, por exemplo, de mecânica quântica. E ele(a) o faz com muita propriedade, como se, o que ele(a) está falando é a mais absoluta verdade. Eu, por exemplo, estudei 4 disciplinas sobre mecânica quântica na graduação e mais 4 no mestrado/doutorado e não tenho coragem de falar sobre mecânica quântica o que essas pessoas andam dizendo por ai. Elas compram livros e/ou revistas pseudo-científicas, lêem coisas fantásticas, acham que compreenderam tudo, criam suas próprias versões e saem divulgando. Entre nós físicos, muitos acham que a mecância quântica não passa de engenharia de resultados, porque ela só foi aceita porque apresentou e ainda apresenta resultados práticos onde as mecâncias clássica e quântica falham. E Física é um ciência experimental e não teórica. Ah, mas uma coisa, da próxima vez não pergunta o que é um referencial inercial, pergunte sim o que é um POSTULADO! Os postulados vieram muito antes da Física, nasceram na ciência da epistemologia dos gregos antigos.
12 de janeiro de 2007 @ 22:40
Bom post. Quando fiz a graduação e o mestrado (em física), achava isso também, mas não só de meus colegas, bem como de alguns professores! É incrível a capacidade humana de tornar arcano o simples (a academia tem muito disso: vaidade). Fico muito chateado quando as pessoas _querem_ entender as coisas, mas não compreendem o _eforço_ necessário para tal.
Quer ver uma pegadinha muito legal em física? Leis de conservação para corpos exetensos. Tem muito bacharel/mestre/doutor aí que mal e porcamente sabe mecânica clássica da partícula. Quem dirá saber o que é um postulado, ou epistemologia. Encontrei mentes alinhadas com a minha (ao menos nestas questões) na rede!
7 de maio de 2007 @ 16:44